Ilha dos Amores

O episódio da Ilha dos Amores ocupa uma quinta parte do poema. Encontra-se colocado estruturalmente na convergência de todos os diversos níveis de acção presentes na obra:

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a viagem dos marinheiros;

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a intriga dos deuses;

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a visão da história passada e futura de Portugal (e do mundo de então);

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a concepção da estrutura do mundo (cosmos);

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a interpretação filosófica do significado da acção dos homens no mundo;

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a crítica da situação factual da política do tempo de Camões.

 

Fácil será fazer uma extrapolação e dizer que a Ilha é a visão paradisíaca do verdadeiro Portugal ou que ela representa uma utopia de feição idealista: o lugar da recompensa dos homens após o longo sofrimento, privação e risco da demorada viagem.

Mas convém notar que, com a prática erótica que essa Ilha faculta aos homens e ao Gama, é feito, paralelamente, o discurso da revelação da sabedoria histórica e cosmogónica.

 

Para além de considerações de carácter esotérico, o que o poema nos dá é de facto a prática e o apogeu do amor físico como sendo a chave textual para a abertura do conhecimento.

Tais propostas são manifestamente heréticas relativamente às doutrinas, quer neoplatónicas, quer católicas.